A estátua jacente - Orides Fontela
Poema de Orides Fontela
I
Contido
em seu livre abandono
um dinamismo se alimenta
de sua contenção pura.
Jacente
uma atmosfera cerca
de tal força o silêncio
como se jacente guardasse
o gesto total do segredo.
II
O jacente
é mais que um morto: habita
tempos não sabidos
de mortos e vivos.
O jacente
ressuscitado para o silêncio
possui-se no ser
e nos habita.
III
Vemos somente o repouso
como uma face neutra
além de tudo o que
significa.
(Mas se nos víssemos
no verbo totalizado
- forma que se concentra
além de nós -
Mas se nos víssemos
na contenção do ser
o repouso seria
expressão nítida.)
Vemos apenas
repouso:
contenção da palavra
no silêncio.
IV
Jaz
sobre o real o gesto
inútil: esta palma.
A palavra vencida
e para sempre inesgotável.
Fonte: "Poemas escolhidos", Nexus, 2021.
Originalmente publicado em: "Transposição", Instituto de Cultura Hispânica, 1969.
