Grafito para Mário de Andrade - Murilo Mendes
Poema de Murilo Mendes
1
Sofro de brasilite,
Mísero télamon
Para suportar nos ombros o BR:
Esmaga-me concreto
Ainda mesmo a distância.
Ninguém situa o BR
Inaferrável.
*
BR difícil multívago
Oscilando / Coisa maior
Entre mocambo e arranha-céu
Entre molusco e caviar
Entre a inácia e a gateza.
BR:
IGUALMENTE CANDIDAТО
AO DOMÍNIO DO UNIVERSO / MAIACÓVSKI
E AOS TRABALHOS FORÇADOS
Nos teus porões aportam diariamente
Enormes caixas de problemas-coisas.
BR -
Entre utopia / realidade
Personalismo / afetividade
Deposita-se o futuro.
"Será tempo de esforço caudaloso,
Será humano e será também terribilíssimo."
2
Teus rios Dioscuros
Tuas diáboas
Este povo coisando na durocracia
Ásperos contrastes
O imenso ideograma da fome
O guaiar do Nordeste goderando
No polígono do abichorno
Sol mecânico.
3
Planificaremos a fatalidade?
Poremos todas as vírgulas no lugar?
Exorcizaremos o dólar?
O guaiar do Nordeste goderando
No polígono do abichorno
Sol mecânico.
3
Planificaremos a fatalidade?
Poremos todas as vírgulas no lugar?
Exorcizaremos o dólar?
Solancas-te.
Solavancas-te.
Esquematizas.
Estilhaças-te
Esperando o traumaturgo.
*
A cada um sua xícara de café.
A cada um aloprado
Sua mínima ração de morte cotidiana.
4
BR/ minha raiz / minha insônia:
O pássaro-telégrafo
Adia o anúncio da aurora
Aeroplanada.
*
Avante força do homem,
Paz no BR e no mundo.
Avante música do homem,
Paz no BR e no cosmo.
Paz a Mário de Andrade no seu osso
Distante das Erínias.
Avante epos do homem,
Avante plano-piloto
Contra o autosatisfeito
Caos.
Avante / Coisa maior
Avante / Coisa maior
Sursum cordaSursum
Sur--------------
Fonte: "Poesia completa e prosa", Nova Aguilar, 1994.
Originalmente publicado em: "Convergência", Duas Cidades, 1970.
