O túnel do século - Murilo Mendes

Murilo Mendes - poeta de segunda geração do modernismo brasileiro

Poema de Murilo Mendes



I

Sob o céu de temor e zinco
Os prisioneiros caminham, tambores velados:
A manopla da noite pesa
Sobre suas omoplatas, seus sonhos comunicantes.
As Erínias, sugadoras antiquíssimas do povo, tambores velados,
Caminham, passo a passo,
Apresentando armas de ódio, punhos implacáveis.
Toda a carne se oferece ao espanto desnudo,
Os castelos de pedra vão se desfazendo
À medida que os heróis agitam a bengala blindada.
As Erínias reproduzem-se durante a noite,
E pela manhã encontramos aberta
A rosa dos ventres.

II

Sob o céu de temor e tremor
A estátua da infância é flechada
Pelos descendentes dos ídolos subterrâneos
Que consagram a espada dançante.
Amaldiçoam o pão e o vinho,
Rasgando o caderno de roseiras.
Cegos digladiando-se num túnel,
Constroem as próprias sepulturas.
Sob o céu de temor e tremor
Os homens clandestinos, tambores velados, caminham.




Fonte: "Poesia completa e prosa", Nova Aguilar, 1994.
Originalmente publicado em: "Poesia liberdade", Editora Globo, 1945.