Trevo do marinheiro


Poema de Antonio Cicero



Ao manobrar no trevo de concreto
ao sol das duas e quinze percebo
certas sombras espessas, bem embaixo
do viaduto, e nelas alguns laivos

de trapos sob o trânsito entrevado.
Em torno desse ponto cego e vago
percorro minha órbita elítica
com rodas de borracha e metafísica,

por pistas falsas, longe, além das orlas
das cirandas financeiras ou rondas
bancárias, longe, entre caracóis

de línguas mortas e mundos de pó
girando numa coluna de sol
que entra no carro enquanto perco a hora.




Fonte: "Guardar - poemas escolhidos", Record, 2006.
Originalmente publicado em: "Guardar", Record, 1996.