Monotonia

Imagem Henriqueta Lisboa

Poema de Henriqueta Lisboa



Monotonia dos dias longos, dos dias longos,
que se prolongam sem ressonância pelas estâncias
imemoráveis das vidas mornas, sem luz nem cor.

Dias brumosos, ermos, inúteis... Dança de jongos
desengonçados... Pés que se arrastam e se cansam
pelos terrenos nessa cadência, toda em torpor...

Que largo tédio! Que tédio exausto! Que tédio fundo
como as olheiras daquelas freiras longe do mundo,
todos os dias às mesmas horas, todos os dias
às mesmas horas, cantando o coro das litanias.

Sempre o relógio marcando o encontro dos meus bocejos!
Preguiça antiga das velhas cordas enferrujadas dos realejos.
Tempo de sobra que a gente esbanja na branca inércia dos lugarejos.
Junto a esta casa, viciadamente, soam os malhos da ferraria...
Monotonia, monotonia, monotonia...
Estou cansada de monotonia!



Fonte: "Obra completa", Editora Peirópolis, 2020.
Originalmente publicado em: "Velário", Editora Belo Horizote, 1936.

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