A ironia mansa da minha tristeza

Imagem Henriqueta Lisboa

Poema de Henriqueta Lisboa


Menos um sonho. E é só. Amanhã - quem duvida?
outros sonhos virão procurar este teto
onde a doçura é humilde e ampla a tranquilidade.
Sou hoje a mesma que fui sempre. A vida,
por mais que me torture o desejo incompleto,
não consegue nublar minha serenidade.

Fui sempre assim, de gestos suaves e voz lenta.
Minha tristeza, que é uma simples atitude,
sempre consola, nunca se faz dor...
Tudo quanto a minha alma experimenta,
da hora mais encantada ao momento mais rude,
toma logo a expressão do meu ritmo interior.

Desilusão que chegas, quem te disse
que me entristece teu contágio? Tem cuidado!
Desilusão... Desilusão...
Antes o teu olhar nunca me visse:
És capaz de levar, por teu pecado,
uma tristeza a mais no coração...

Quem sonha assim como eu, quase por vício,
por um motivo de beleza, por um destino,
sabe que pouca coisa é um desengano...
Alvo de ouro que és hoje o meu sonho propício,
olha que te previno:
folhas de árvore vão, voltam outras para o ano...

Talvez que um dia, vagamente pensativa,
a árvore se recorde e pergunte baixinho:
Que fim levou aquela folha do meu galho?
Terá morrido, será viva?
E alguém que for passando acaso no caminho
verá fulgir na sombra uma gota de orvalho.



Fonte: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.
Originalmente publicado em: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.

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