Hora eterna

Imagem Henriqueta Lisboa

Poema de Henriqueta Lisboa



Esta noite, nem sei... tenho a janela aberta
e não quero dormir para sentir a vida.
Nem um vulto sequer pela rua deserta.
E ao ver a lua no alto, entre nuvens erguida,
penso que não existe um poder transmissor
que mais fale da morte e mais fale do amor.

Pois o luar, que ilumina amplos jardins em festa,
há pouco andou de rastro, a lamber lajes frias.
Por isso é que tão cedo a alegria se cresta
e há, na pompa nupcial dos grandes dias,
luxo de exéquias e quebrar de taças...

Vida que esplendes porque passas!...

Quero viver, sentir num turbilhão
dentro do pensamento a certeza deste eu.
Sofra embora - que importa? - o corpo fatigado,
quero vida, mais vida, alma, renovação,
força para reter tudo o que o céu me deu,
capacidade para amar o que foi criado!

Vida que esplendes porque passas
e que és amada porque findas!...

Ser em ti, por ti mesma, aspirar-te, sorver-te,
integrar no teu ser todas as coisas lindas,
adivinhar em ti o atropelo das raças,
subir contigo aos píncaros, num grito
da vontade que doma a atração do infinito,
transpor-me, presa do teu hausto,
e um dia, em frente ao sol, de súbito perder-te
e rolar pelo caos como um pássaro exausto!

Há de chegar o dia em que em todo o universo
não restará de mim nem uma poeira de ossos.
E como hoje, tal qual, haverá noite e lua,
e um vulto a uma janela e um sofrimento e um verso,
e um sabor de imiscuir desejos e destroços,
e este estranho prazer que me exalta e extenua
de surpreender o ruído tímido de uma asa,
de ver a sombra que se alastra pela casa,
de beber o perfume e a umidade de fora,
de ter vertigens quando o sono dos outros basta,
de ser só como um deus dentro da noite vasta,
de ser eterna por uma hora,
de viver, de viver!...



Fonte: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.
Originalmente publicado em: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.

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