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Poema de Fernando Pessoa



Se penso mais que um momento
Na vida que eis a passar,
Sou para o meu pensamento
Um cadáver a esperar.

Dentro em breve (poucos anos
É quanto vive quem vive),
Eu, anseios e enganos,
Eu, quanto tive e não tive,

Deixarei de ser visível
Na terra onde dá o Sol
E ou desfeito e insensível
Ou ébrio de outro arrebol.

Terei perdido, suponho,
O contato quente e humano
Com a terra, com o sonho,
Com mês a mês e ano a ano.

Por mais que o Sol doire a face
Dos dias, o espaço mudo
Lembra-nos que isso é disfarce
E que é a noite que é tudo.



Fonte: 'Obra Poética', décima edição, Editora Nova Fronteira, 2001.

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