É ela a claridade da lua


Poema de Joaquim Norberto de Sousa Silva



Que silêncio!...  Agora a lua
Vai dúbia luz derramando
Entre estrelas caminhando
Per esse anilado céu!
Serena reveste a terra,
De não sei que mago véu
Que apadrinha mil amores,
Furtivos, doces favores
De que quisera ser réu.

Vem agora... vem, ó virgem,
Anjo de amor e esperança,
Que se tudo ora descansa,
Não descanso eu a esperar!
Quando a terra envolvem trevas,
Sem estrelas a brilhar,
Que enchem tudo de pavores,
A tudo transmite horrores,
É que eu gosto de cismar!

Mas agora... oh! que tão meigo,
Que tão gratíssimo instante!
Ditoso do vate amante
Que pode a amante gozar!
Quando a terra é duvidosa,
Que a cinge frouxo luar,
Quando a brisa exala odores,
Dorme tudo, até as flores,
É que eu gosto então de amar!

Vem agora, pois, ó virgem,
Ilusão doce e fagueira;
Olha a hora lisonjeira,
Vem teu vale consolar!...
Envolve-te nesse manto
De frouxo, grato luar;
Pelos olhos traz-me as estrelas
Que vejo no céu tão belas,
Para nelas me atear!

Ah corre a estes meus braços,
Desce à terra, ó minha amada;
Vem sobre a lua sentada
Qual num carro de marfim!
Vem com teus dentes de pérolas,
Vem com lábios de rubim,
Vem com essas trancas d'ouro,
Vem com todo esse tesouro,
Que possues sô para mim!

É ela!... Eis a tênue sombra
Que de humano toma a forma;
Numa virgem se transforma
De ardente e mágico olhar!
Oh que a terra é duvidosa
Com esse frouxo luar!
Oh que a brisa exala odores!
Dorme tudo, até as flores...
Agora gosto eu de amar!

Ó virgem! ó virgem bela!
Anjo de amor e esperança!
Quem me dera a segurança
De jamais te ver fugir!
Mas és sombra... e dentro em breve
Vais no espaço te sumir;
Que não vejas no horizonte
Por além daquele monte
Para nós o sol surgir!

Ah que à luz do sol te esquivas!
A luz do sol não é bela?
Ou desmaias qual estrela
Do céu no mimoso anil?
Ou te desfazes qual sombra,
Qual vapor leve, sutil?
Ou és como ave noturna
Que a esconder-se à luz diurna
Busca a treva em seu covil?

E nada dizes? - És muda?
Qual eco já me falaste!
Qual brisa já me afagaste,
Que me vieste beijar!
Estrela formosa e linda,
Nas ondas te vi brilhar,
E já nas ondas metido
Vi-te o brilho esmorecido,
Vi-te em sombras te ocultar!

Se és musa - porque somente
O fogo de amor derramas?
Porque tão somente inflamas
Meu gelado coração?
Se és fada - aonde deixaste
Que te não vejo o condão?
Se és sombra - porque me enganas
Com essas formas humanas
Tão cheias de sedução?

Se és lamure - esse teu rosto
Tem um não sei que de vivo,
De meigo tão expressivo
Que jamais inspira horror;
Se és anjo - tu tens de virgem
Os donaires e o pudor;
Tens uns olhos columbinos
Tão maganos, tão malignos
Que sô me falam de amor.

Se és virgem - então porque causa
Tu me escutas impassível?
Porque cruel, insensível,
Te mostras a meu amor?
E não vês que se ardo em febre
Vem de ti todo esse ardor?
Que se meus olhos rutilam
São porque os teus cintilam
Com lume tão sedutor?

És um amor no futuro...
Do futuro és um lampejo
Que ardentemente desejo
Ver fixa luz me luzir;
Pois quero pra todo o sempre
Estes meus braços te abrir
E a fronte unida à tua fronte
Ver d'além daquele monte
O sol para nós surgir!

Fonte: "O livro de meus amores", B. L. Garnier, 1848.
Originalmente publicado em: "O livro de meus amores", B. L. Garnier, 1848.

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