O último gesto de doçura

Imagem Henriqueta Lisboa

Poema de Henriqueta Lisboa



Pouco a pouco se extingue a doçura de outrora
que fazia de mim uma sombra e um perfume
dentro do teu coração.
É que chegou de vez a hora do termo, esta hora
em que o sonho se cansa, em que o amor se resume
numa recordação.

Pois que tens de partir é melhor que te vás
antes que se envenene o ar azul do recinto
que foi céu para nós.
Neste ambiente feliz de ternura e de paz,
onde não se bebeu um gota de absinto,
não se levanta a voz.

Se a impressão derradeira é a que traz plenitude,
venha o ponto final. Porque, enquanto nos vemos
ambos na mesma estrada,
de um momento para o outro esta palavra rude
que marca a ferro e fogo os instantes supremos
poderá ser lançada.

Vá contigo a lembrança ideal de uma criatura
que te amou, que te quis, que te soube ser fiel
e acreditou em ti;
que foi simples e mansa, doce e pura,
que preparou teu pão - quantas vezes! - com mel
e que ainda hoje sorri.

Que fez mais do que pôde e sofreu e lutou
para transfigurar tudo quanto sonhaste
e acha pouco o que fez;
que hoje pede perdão pelo que te faltou:
a rosa que pendia a balançar-se na haste
tinha espinhos talvez...

É possível que uma outra ainda pudesse amar-te.
A mim, que esperei tanto e não posso iludir-me,
surge nova clareira.
A alma que conheceste é uma só, não se parte:
Quero-a hoje tão nova, esperançada e firme
como na hora primeira.

A mostrar-me diversa e menor do que fui,
a ser diante de ti uma sombra do que era,
prefiro nada ser.
O verdadeiro amor nunca se diminui:
morre como viveu, cheio da primavera,
do sol que o viu nascer.



Fonte: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.
Originalmente publicado em: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.

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