O estigma do silêncio

Imagem Henriqueta Lisboa

Poema de Henriqueta Lisboa



Hoje que tudo sei, que me disseste tudo,
hoje que sou feliz pela revelação,
tenho um desejo de retroceder.
Todo esse tempo em que estiveste mudo
de tal modo o cerrei dentro do coração
que já faz parte do meu ser.

Se eu pudesse volver ao período inicial
levando a confissão que finalmente veio
e, desprendida desse enleio,
pudesse eu ver no amor uma coisa normal
sem a amargura que o silêncio trouxe,
eu teria mais vida, eu seria mais doce...

E se alguém te disser que me falta alegria,
responde: "Fui eu mesmo..." Ai! Aquele que amar
não espere que o amor chegue à melancolia
para depois falar.
Diga que ama,
diga que tem a alma em delírio, o peito em chama,
diga tudo o que vier à boca alucinada,
mesmo que apenas solta a frase fugidia
já não sinta mais nada!



Fonte: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.
Originalmente publicado em: "Enternecimento", Paulo Pongetti Editora, 1929.

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