crroma
Um oceano oculto em rocha
parecia indefectível,
deus indígena
no seio do continente:
aquífero,
cujos poros nutriam-se das chuvas,
por cujos lábios entornavam-se rios.
Aparência que o ato humano expunge.
Concentram-se as chuvas,
escoem por adulteradas superfícies.
As dilatadas secas fazem
o ar ávido pelas águas,
que evaporam.
Sugam-no para matar a sede de residências,
para irrigar monoculturas.
Esgota-se um oceano
enquanto poços se multiplicam,
os rasos ficam vazios,
outros mergulham
num obstinado consumo.
Talvez não esgotamento:
apenas cansaço.
E o aquífero recolhe-se
ao âmago da crosta,
que suas águas habitam
há milhares de anos.
Desde o tempo de gentes
pretéritas e melhores.
Desde um tempo livre de povos,
entregue ao simples fluir da natureza.
Recolhe-se.
Aguarda a ascensão de novas culturas
ou de espécies novas
com geológica paciência.
(Da Agência Brasil: 'Reposição de estoque do Aquífero Guarani é insuficiente, mostra estudo')
