Noturno em Palmira

Imagem da poeta Jacinta Passos

Poema de Jacinta Passos



E tu que não vens. A noite é música apenas.
Distâncias, formas e cores apagaram-se na treva.
- A curva ondulante das colinas
e a linha dos longos eucaliptos.
Asas negras de urubus cortando a transparência do azul.
O branco sanatório solitário nas montanhas
e os gestos dos homens sofredores,
gestos simples de homens para quem a tragédia se tornou uma forma de vida.
Distâncias, formas e cores apagaram-se na treva.
Somente a noite existe, a densa noite informe.
Os seres são puras formas interiores,
são ritmos essenciais.
A presença das árvores é o cântico da seiva elaborando.
Os animais desapareceram dentro da espécie gloriosa.
Mundos em formação latejam nos espaços noturnos
e astros mortos giram a saudade da luz.
Fluidos imponderáveis,
ondas de energia cósmica rolando,
movimentos iniciais de formas obscuras,
sons, misteriosos sons nascendo de ignotas distâncias sem fim.
Música pura,
a vida original vibrando dentro da grande noite mágica e profunda.
A noite é música apenas. E tu que não vens.



Fonte: "Jacinta Passos, coração militante", Editora EDUFBA, 2010.
Originalmente publicado em: "Nossos Poemas", Editora Bahiana, 1942.

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