O bandarra


Poema de Manoel de Barros



Ele só andava por lugares pobres
E era ainda mais pobre
Do que os lugares pobres por onde andava.
Falou de começo: Quem abandona a natureza entra a verme.
Aves nutriam por ele deslumbramentos de criança.
Ele sabia o sotaque das lesmas.
E tinha um modo de árvore pregado no olhar.
O homem usava um dólmã de lã sujo de areia e cuspe de aves.
Mas ele nem tô aí para os estercos.
Era desorgulhoso.
Para ele a pureza do cisco dava alarme.
E só pelo olfato esse homem descobria as cores do amanhecer.



Fonte: "Poesia Completa", Editora Leya, 2010.
Originalmente publicado em: "Tratado geral das grandezas do ínfimo", 2001.

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