A pedra


Poema de Manoel de Barros



Pedra sendo
Eu tenho gosto de jazer no chão.
Só privo com lagartos e borboletas.
Certas conchas se abrigam em mim.
De meus interstícios crescem musgos.
Passarinhos me usam para afiar seus bicos.
Às vezes uma garça me ocupa de dia.
Fico louvoso.
Há outros privilégios de ser pedra:
a - Eu irrito o silêncio dos insetos.
b - Sou batido de luar nas solitudes.
c - Tomo banho de orvalho de manhã.
d - E o sol me cumprimenta por primeiro.



Fonte: "Poesia Completa", Editora Leya, 2010.
Originalmente publicado em: "Tratado geral das grandezas do ínfimo", 2001.

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