Amiel


Poema de Fernando Pessoa




Não, nem no sonho a perfeição sonhada
Existe, pois que é sonho. Ó Natureza,
Tão monotonamente renovada,
Que cura dás a esta tristeza?
O esquecimento temporário, a estrada
Por engano tomada,
O meditar na ponte e na incerteza...

Inúteis dias que consumo lentos
No esforço de pensar na ação,
Sozinho com meus frios pensamentos
Nem com uma esperança mão em mão.

É talvez nobre ao coração
Este vazio que anseia o mundo,
Este prolixo ser que anseia em vão,
Exânime é profundo.

Tanta grandeza que em si mesma é morta!
Tanta nobreza inútil de ânsia e dor!
Nem se ergue a mão para a fechada porta,
Nem o submisso olhar para o amor!



Fonte: 'Obra Poética', décima edição, Editora Nova Fronteira, 2001.

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