A menina avoada (trechos)

Imagem de Manoel de Barros

Poema de Manoel de Barros



III

Manhã?
Era eu estar sumida de mim e todo-mundo
me procurando na praça
estar viajando pelo chão
que a água é atrás
até ficar árvores
com a boca pendurada para os passarinhos...

V

Uma cerca
veio perseguindo
o meu trem, que veio
quando anoiteceu...
(essa noite andou bebeu água no rio
caminhou debaixo de paus aproveitou
fez muito urubus apanhou sombras com mato
subiu no tronco do céu
e agora está derramando frutos
nos lábios do cheiroso molhado...)

- Você não viu?

XI

O rio pastava
os sussurros da noite
nos luarais de eu ter olhos azuis.

XV

Ainda estavam verdes as estrelas
quando eles vinham
com seus cantos rorejados de lábios.
Os passarinhos se molhavam de
vermelho na manhã
e subiam por detrás de casa para me
espiarem pelo vidro.
Minha casa era caminho de um vento
comprido comprido que ia até o fim do mundo.
O vento corria por dentro do mundo
corria lobinhando - ninguém
não via ele
com sua cara de alma.



Fonte: "Poesia Completa", Editora Leya, 2010.
Originalmente publicado em: "Compêndio para uso dos pássaros", 1960.


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