A Avenida

Imagem de Ferreira Gullar

Poema de Ferreira Gullar



O relógio alto, as
flores que o vento subjuga,
a grama a crescer
na ausência dos
homens.
Não obstante,
as praias não cessam.
Simultaneidade!
diurno
milagre, fruto de
lúcida matéria – imputrescível! O
claro contorno elaborado
sem descanso. Alegria
limpa, roubada sem qualquer
violência ao
doloroso trabalho
das coisas!


2

Miséria! esta avenida é
eterna!
Que fazem os galhos
erguidos no
vazio
se não garantem sua
permanência!
O relógio
ri.
O
canteiro é um mar
sábio contido
suicidado.
Na luz
desamparada, as corolas
desamparadas.


3

Precárias são as praias dos
homens:
praias
que morrem na cama com
o ódio e o
sexo: perdem-se
no pó sem voz.
A importância das praias para o mar!
Praias, amadurecimento:
aqui
o mar crepita e fulgura, fruto trabalhado dum fogo
seu, aceso
das águas,
pela faina das águas



Fonte: "Coleção Melhores Poemas", Editora Leya, 2012.
Originalmente publicado em: "A luta corporal", 1954.


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