A noite em 1942

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Poema de Murilo Mendes



1

Há um sopro geral
Sopro melancólico
De pobre alma
Que se debate
Pulmão se esvaziando.
Noite convexa
Noite de metal e gritos de recém-nascidos,
Mais tristes que de agonizantes.
Tuas penas de amor
Alimentam seres desertos
A fatalidade com pés de bronze
Anuncia as núpcias solenes
- Cerimônia matemática -
Do adolescente e da guerra.
Sopro geral
Pulmão se esvaziando.


2

O vampiro Ditador
Semeou espadas
Colhe cadáveres.
Mais exigente que Vênus
Assobiando percorre
Os quatro cantos do mundo.
Todos se olham
Com pupilas de terror,
Malditos que regressam
Da cidade de cinzas.
Estrela azul
Do doce espanto,
Caixa de música da branca infância
Onde vos encontrarei?
Nem no outro mundo
Nem neste.
Inútil dança
Tudo é cruel.



Fonte: "Murilo Mendes: Melhores Poemas", Global Editora, 2012.
Originalmente publicado em: "Mundo Enigma", Livraria do Globo, 1945.


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