Ferreira Gullar
Em que parte de mim ficou
aquela mancha azul?
ou melhor, esta
mancha
de um azul que nenhum céu teria
ou teve ou mar?
um azul
que a mão de Leonardo achou
ao acaso e inevitavelmente
e não só:
um azul
que há séculos
numa tarde talvez
feito um lampejo surgiu no mundo
essa cor
essa mancha
que a mim chegou
de detrás de dezenas de milhares de manhãs
e noites estreladas
como um puído
aceno humano.
Mancha azul
que carrego comigo como carrego meus cabelos
ou uma lesão
oculta onde ninguém sabe.
Fonte: "Coleção Melhores Poemas", Editora Leya, 2012.
Originalmente publicado em: "Barulhos", 1987.
