Diferença

Imagem Henriqueta Lisboa

Poema de Henriqueta Lisboa



Para os outros encontro frases suaves,
tons em surdina de violino ao luar.
Para ti tenho apenas ritmos graves,
plangências rudes, a increpar
no mesmo entorno bárbaro do mar.

Souberam outros que ternura
pode abrigar o coração que é teu.
Tu tens provado o fel, tens visto escura
a estrada por ondes andas à procura
daquele amor que desapareceu.

Diante dos outros tudo é flor e graça.
Diante de ti o meu olhar se embaça
tal como o olhar dos moribundos
ou as águas dos rios, mais profundos
depois que a tempestade passa.

Se para os outros sempre hei de ser boa
e nunca para o que escolhi,
antes amasse qualquer um - perdoa!-
e tivesse a alma clara para ti.



Fonte: "Obra completa", Editora Peirópolis, 2020.
Originalmente publicado em: "Velário", Editora Belo Horizote, 1936.

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