Poema 08 de 11/21
Poema de crroma
Aqui colhiam-se
besouros de castanheiras.
Desperfumavam
na ponta dos dedos.
Agora não há mais besouros.
Aqui o rio espumava de peixes.
Lambaris e piavas miúdas
mordiscavam os dedos.
Águas de líquidas janelas
abertas à profusa flora
de capim-capivara,
erva-de-sapo,
de alface e samambaia.
Agora turvas,
com estofo de algas.
Aqui o inverno
acostumava-se azul.
Desfiava esporádicas nuvens.
Agora borbulha fumaça
preta de queimadas
ou veludos de poeira,
fechando cortinas sobre as cidades.
Aqui matas
jacarandavam pelas colinas,
ipês floravam junho-agostos
roxos amarelos
brancos
ou rosa variando.
Agora proeminente concreto.
Aqui tramavam ar
e floresta,
germinando nascentes
e interiores aquíferos.
Agora entrecortam torrentes
ou o estio distende-se
pelo campo despido.
Aqui a serra uma vertigem.
Noites em companhia do frio,
goles de prosa aos pés do fogão.
Agora a mineração de um recorte vazio,
e se o frio vem:
um espanto.
