Marly de Oliveira
Falar de amor não é apenas
atravessar algum deserto
e de repente sem querer
chegar ao oásis singelo,
espaço luminoso e úmido,
onde os destemidos se perdem,
na urgência de beber a água
límpida que surge da terra;
os leques de altas palmeiras
cobrindo com seu verde a areia.
Amar é ficar no deserto,
com sua sede e sua imensa
desolação de céu aberto.
Por isso a recusa perene
da mesa farta e a razão
para o convite que vos faço
levando em conta a percepção,
levando em conta as exigências
a que sem querer nos obriga,
tal como ao vento no campo
se verga do milho a espiga.
Fonte: "Antologia poética", Editora Nova Fronteira, 1997.
Originalmente publicado em: "O banquete", Editora Record, 1988.
