Contato IV - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



O contínuo presente, essa falácia
com que me iludo e elido
o problema maior: o irreversível
minucioso fluir de tudo. Lenta,
vai a noite carpindo,
com cintilantes véus, o seu declínio.
A noite insidiosa, fluida, e antiga,
que ao jeito enamorado de outros poetas
eu não celebro, esquivo, promitente
de um encontro que sei e que hei perdido.
Que vãs escadarias se pressentem,
levando a quê? na bruma,
ou no langor que já entrelaça
pessoas, coisas, ritos e paisagens?

Que perfis se recortam no silêncio
imêmore, ou que minas
deitam seu ouro inerte, inutilmente?
Ressentido passado, fogo lento
que inexiste e persiste,
não obstante, corroendo o presente,
corroendo o futuro, que é o presente
disfarçado em roupagens de não-ser.
Tens-me cativa, porém não submissa,
atenta ao desconcerto
de avarias que vão ao infinito,
que não busquei, que aufiro.
Nem me consterna mais, nem me amofina
o mosaico de penas sem valia.




Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "Contato", Editora Imago, 1975.
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