Marly de Oliveira
O terrível é o tempo, a minha forma
de não ver o contínuo
real, os confundidos no presente
vários tempos que o mesmo tempo forja.
O abranger sucessivo
das coisas é que impede a minha urgente
vontade de entender o que em mim sente.
vontade de entender o que em mim sente.
De olhos postos na vida e na esperança,
contemplo com espanto esse inclinar-se
de frondes e de sombras
sobre a erva. Sei de mim que sou grave,
e tenho intensidade
sem luxúria, e o sentido que busco
de mim e do que vive é esse profundo
não-saber minucioso de luz vária.
O fino amor que sinto
resiste à fria pedra, à dura gema,
e se exercita na constância da água;
e cresce enigma, absinto,
ora dilui, ora dilata a pena.
Esmorece? edifica? em forma lenta
permite, e não, o anelado contato
com o que é, sem atrever-se ao mínimo
movimento de entrega.
O gesto volta em ondas para dentro:
tenho o rosto tranquilo e o peito ardendo.
Mas quem salva do tempo esse passivo
contemplador do amor e do infinito?
Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "Contato", Editora Imago, 1975.
Veja a biografia, lista de poemas e artigos sobre Marly de Oliveira
Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "Contato", Editora Imago, 1975.
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