Canto XXII - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



Vou fazendo do dia minha noite,
e ganho em paz, silêncio e harmonia,
mas que olhos tenho, que contemplem calmos
a luz que fortalece e revigora
cada parte do corpo e da minha alma?
Nessa empresa difícil de viver,

como escolher o bom de se viver,
se em pleno dia estou cheia de noite,
e em plena noite tenho o dia na alma,
e mais que o dia, a música, a harmonia
de uma paz que alivia e revigora,
e vai tornando os pensamentos calmos,

tranquilos, lassos; e ainda mais que calmos,
afeitos a um pleníssimo viver,
que às vezes nem indaga e revigora
a mente mergulhada em sua noite;
está fora de mim essa harmonia
que busco no silêncio da minha alma?

E baixa, dessentido, até minha alma
um desejo, uma aspiração de calmos
paraísos repletos de harmonia,
aprazentes jardins, onde viver
é pouco a pouco ir transformando a noite
naquela suma luz que revigora,

e acalma quanto mais me revigora
as finas representações da alma,
as tramas que tecendo vai a noite,
os laboriosos enigmas. Que calmos
vamos sendo no mágico viver,
que sensíveis à força da harmonia,

que submissos. Mas haverá harmonia
real, se a mesma luz que revigora
é a que me deita sombras no viver,
e torna inquisitiva essa minha alma,
e inquietos os de natureza calmos
pensamentos formados pela noite?




Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "Contato", Editora Imago, 1975.
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