Canto XIII - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



Neste jardim fechado de amplo céu
e flores recobrindo
a grama silenciosa, tão mudada
do que fui e contudo ainda sem elos
com o absoluto real,
prefiguro outros tempos, confiada
na fortuna e na sua impenetrável
tessitura. Nesta minha natureza
inquisitiva e minudente sobra
um desdém sem firmeza
pelo fruir gozoso dos sentidos,
eu que, no entanto, insisto em repetir
que aspiro à desistência do intelecto
para chegar àquilo que está perto.

Ah, que triste sucesso este do inútil
e pobre afastamento!
Que vão esforço, que cansado ofício
este que não alcança dirimir
o mínimo tormento.
Pois tão grave há de ser o que se sente?
Tão sem recurso o mal, que a própria mente
sem socorro se vê por prefini-lo?
Deleitam-me estas árvores e flores
e este quieto jardim
com fina música de todo lado.
Considero o calado
vivo que anima cada coisa, atenta
à enorme realidade aqui suspensa.




Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "Contato", Editora Imago, 1975.
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