Marly de Oliveira
Desta cansada já tristeza minha
descubro de repente
o núcleo compressor, os desacordes
elementos que a esse vale antigo
me trazem quase sempre,
como se fora uma injunção da sorte,
a que me não esquivo em vão propósito.
Aqui e ali percebo o espongiário
coração, sempre exposto, e o seu delir
consequente no vasto
intrincado de gestos e emoções
que nunca entenderemos.
Não me devoro, insisto em despojar-me
do que herdei, do que vivo, e olhar a tarde.
Desfazem-se e refazem-se infinitos
os azuis sobre as coisas,
transformadas por meu tranquilo arder
em memórias há muito revolvidas
pela mágoa. E que diáfanas
as árvores de agora, tão reais
ao vento de setembro suavemente
noutros tempos movendo-se. Há-de sempre
escapar-me o presente em forma vaga
ou perturbar-se em vão
deixando livre campo ao meu assombro,
ao calado entressonho
de minha firme e nula expectativa?
Pouco a pouco o que vejo me assimila,
e tem por diligência devolver-me
ao desafervorado
círculo do eu, incôndito e imperfeito.
Começo de perder a fortaleza
em coisas praticando
de amor sem esperança de objeto
capaz de retribuir na igual medida.
Ou vem talvez a minha força desse
contínuo desistir
estranho à ânsia original e livre
de todo impedimento?
Teimo em pensar que o amor sabe o caminho
e é ainda imperfeição se me extravio.
Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "Contato", Editora Imago, 1975.
Veja a biografia, lista de poemas e artigos sobre Marly de Oliveira
Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "Contato", Editora Imago, 1975.
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