Marly de Oliveira
Ah, meu amor, ah, vida
que vamos construindo devagar
sobre tamanhas perdas em tão frágil
mundo. Como explicar,
no império de uma força corrosiva,
o sem-fim, o durável, esse tácito
querer sempre inconcluso e sem presságios?
Amplia-se a visão no dia claro:
o maciço e o etéreo, o perceptível
e o não, eis o caminho
para o livre abstrair e a adoração.
O ouro volatiliza-se,
mas meu corpo se banha nesse ouro,
o meu ver imperfeito modifica
a aparência febril, não substantivas
formas, que essas escapam
ao meu engano e ao inculpe dano.
Além de mim, além desse constante
e curioso indagar,
há o mundo reticente, as coisas bradam
a vida multiforme e reintegrante,
o relativo, o dependente, o que
precisa de aliança e semelhança,
o que num permanente refazer-se
me acerca a essa iminência
do que não se revela, ou não alcança
desvendar minha mente;
luz excessiva ou parca, via obscura?
Abro as comportas de meu ser inteiro;
Abro as comportas de meu ser inteiro;
na sem cautela, amor, de que te abeiras?
E como despojar-te
desse Não que antecede a nova ânsia
de amar sem astrolábios, diretivas,
sem signos e esperanças?
Uma espera cruel na não-espera
se disfarça reptante, sub-reptícia.
Não sei de outro valor, outro suplício
que na alma pese mais do que esse pesa.
Não me preservo já, sei que preciso,
e um vago paraíso
abre jardins de silenciosa pedra
sobre o desejo cego.
O que me instrui é o mesmo que conserva
intacto algo em mim, bem que perplexo
ante o que fica e sempre deixa eco.
Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "Contato", Editora Imago, 1975.
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