Canto VIII - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



Ah, meu amor, ah, vida
que vamos construindo devagar
sobre tamanhas perdas em tão frágil
mundo. Como explicar,
no império de uma força corrosiva,
o sem-fim, o durável, esse tácito
querer sempre inconcluso e sem presságios?
Amplia-se a visão no dia claro:
o maciço e o etéreo, o perceptível
e o não, eis o caminho
para o livre abstrair e a adoração.
O ouro volatiliza-se,
mas meu corpo se banha nesse ouro,
o meu ver imperfeito modifica
a aparência febril, não substantivas

formas, que essas escapam
ao meu engano e ao inculpe dano.
Além de mim, além desse constante
e curioso indagar,
há o mundo reticente, as coisas bradam
a vida multiforme e reintegrante,
o relativo, o dependente, o que
precisa de aliança e semelhança,
o que num permanente refazer-se
me acerca a essa iminência
do que não se revela, ou não alcança
desvendar minha mente;
luz excessiva ou parca, via obscura?
Abro as comportas de meu ser inteiro;
na sem cautela, amor, de que te abeiras?

E como despojar-te
desse Não que antecede a nova ânsia
de amar sem astrolábios, diretivas,
sem signos e esperanças?
Uma espera cruel na não-espera
se disfarça reptante, sub-reptícia.
Não sei de outro valor, outro suplício
que na alma pese mais do que esse pesa.
Não me preservo já, sei que preciso,
e um vago paraíso
abre jardins de silenciosa pedra
sobre o desejo cego.
O que me instrui é o mesmo que conserva
intacto algo em mim, bem que perplexo
ante o que fica e sempre deixa eco.




Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "Contato", Editora Imago, 1975.
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