O sangue na veia XLI - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



E é tudo orvalho, seda em minhas mãos,
seda toda diluída em nada puro;
e é como se eu voltada para a frente
vivesse para trás e de recuos.
A menos que o recuo fosse o passo
que dou na direção do que procuro,
tão sem saber, que se o atingisse inteiro,
lhe dava apenas isto, um rosto duro.
Tocada pela graça de não crer,
falta-me justamente a que eu queria,
que é a de não esperar para viver;
pois se prossigo na esperança, a via
é um contínuo abrasar até morrer.
Só a alegria não mata, só a alegria.




Fonte: "Contato", Editora Imago, 1975.
Originalmente publicado em: "A vida natural/ O sangue na veia", Editora Leitura S.A., 1967.