Marly de Oliveira
Não deixo que suas rosas
pouse a morte em minha mão,
mas branquejo, penso, aprumo
caminho de estrelas claras
a que altos lírios dão rumo.
Tomo teu rosto no vento
(Teu rosto de água e silêncio
como uma sombra aclarada.)
Mas graves desenhos sobem
do chão para a madrugada.
Beijo teu rosto no vento.
Mas ai, de gesto tão fundo!
Para embaçar o cristal
da vida, eis o gume, vindo
das profundezas do mundo.
Beijo teu rosto, mas temo
pelo que não sei, pressinto,
pois vendo que as horas vão,
sabres de vento me curvam
para a erva seca do chão.
Fonte: "Suave Pantera", Editora Orpheu, 1968.
Originalmente publicado em: "Cerco da primavera", Editora Livraria São José, 1957.
