A ponte - Marly de Oliveira

Marly de Oliveira - poeta da terceira geração do modernismo brasileiro
Marly de Oliveira



A noite vai tropeçando 
nas ondulações do rio, 
e esbarra no muro negro, 
onde as águas mais se agitam 
e o vento aprimora o fio. 

Aqui se levanta a ponte. 
Aqui madeira pisada 
de tempo, fuga e memória, 
mostra fendas azuladas 
por onde a vida se escoa. 

Primeiro as asas douradas, 
o rubor dos oito anos, 
o sonho das mariposas.
Mais tarde a moeda verde,
até mesmo a mão fechada.

A noite chega e derrama 
seu vinho negro que gira 
nos cilindros de madeira, 
e traça obscuros traços 
sob as águas verdenegras. 

Poeiras de muito sol 
e chuvas assim deixaram-na, 
com brechas de limo verde 
e ágrio sumo, onde a lua 
não move silêncios claros. 

Foi o milenário sonho 
da cidade, dos passantes. 
Foi o tempo, foram luzes, 
auroras, noites, crepúsculos, 
água, vento, manhãs puras.

Foram voos ensaiados 
na madeira imóvel, fria, 
por alcançar velas brancas, 
remos, barcos, altas pranchas, 
e pernas de aves marinhas.

(No alto o lume das eras 
aponta tempo e mais tempo. 
Em baixo a ponte calada, 
austera como quem sabe, 
quem sabe. Mas não diz nada.)




Fonte: "Suave Pantera", Editora Orpheu, 1968.
Originalmente publicado em: "Cerco da primavera", Editora Livraria São José, 1957.