Vozes d'África - Castro Alves
Poema de Castro Alves
DEUS! ó Deus! onde estás, que não respondes!
Em que mundo, em que estrela tu te escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que em vão desde então corre o infinito.
Onde estás, Senhor Deus?...
Qual Prometeu, tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia,
Infinito galé!...
Por abutre - me deste o sol ardente!
E a terra de Suez - foi a corrente
Que me ligaste ao pé...
Do deserto na rubra penedia,
Infinito galé!...
Por abutre - me deste o sol ardente!
E a terra de Suez - foi a corrente
Que me ligaste ao pé...
O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino,
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eterno.
Sob a vergasta tomba ressupino,
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eterno.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Indostão.
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Indostão.
Por tenda - tem os cimos do Himalaia...
O Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais...
A brisa de Mysora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do deus Brahma,
Pagodes colossais...
O Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais...
A brisa de Mysora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do deus Brahma,
Pagodes colossais...
Europa - é sempre Europa, a gloriosa!...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármore de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista - corta o mármore de Carrara;
Poetisa - tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!...
Mas eu, Senhor!... Eu triste, abandonada
Em meio dos desertos esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente!
Talvez... para que meu pranto, ó Deus clemente,
Não descubras no chão!...
Em meio dos desertos esgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente!
Talvez... para que meu pranto, ó Deus clemente,
Não descubras no chão!...
E nem tenho uma sombra na floresta
Para cobrir-me, nem um templo resta
No solo abrasador...
Quando subo às pirâmides do Egito,
Embalde aos quatro céus, chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Para cobrir-me, nem um templo resta
No solo abrasador...
Quando subo às pirâmides do Egito,
Embalde aos quatro céus, chorando grito:
"Abriga-me, Senhor!..."
Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada,
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz..."
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada,
Ai! dizem: "Lá vai África embuçada
No seu branco albornoz..."
Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá, no solo onde o cardo apenas medra,
Boceja a Esfinge colossal de pedra,
Fitando o morno céu.
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá, no solo onde o cardo apenas medra,
Boceja a Esfinge colossal de pedra,
Fitando o morno céu.
De Tebas nas colunas derrocadas,
As cegonhas espiam, debruçadas,
O horizonte sem fim...
Onde branqueja a caravana errante
E o camelo monótono, arquejante,
Que desce de Efraim...
As cegonhas espiam, debruçadas,
O horizonte sem fim...
Onde branqueja a caravana errante
E o camelo monótono, arquejante,
Que desce de Efraim...
Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!...
É pois teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?
E o que é que fiz, Senhor?! que torvo crime
Eu cometi jamais, que assim me oprime
Teu gládio vingador?!...
É pois teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?
E o que é que fiz, Senhor?! que torvo crime
Eu cometi jamais, que assim me oprime
Teu gládio vingador?!...
Foi depois do dilúvio... Um viandante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Ararat...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Chan, serás meu esposo bem amado...
Serei tua Eloá..."
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Ararat...
E eu disse ao peregrino fulminado:
"Chan, serás meu esposo bem amado...
Serei tua Eloá..."
Desde este dia, o vento da desgraça
Por meus cabelos, ululando, passa
O anátema cruel;
As tribos erram do areal nas vagas,
E o nômade faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Por meus cabelos, ululando, passa
O anátema cruel;
As tribos erram do areal nas vagas,
E o nômade faminto corta as plagas
No rápido corcel.
Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Vi meu povo seguir - Judeu maldito -
Trilho de perdição...
Depois vi minha prole desgraçada,
Pelas garras d'Europa - arrebatada,
Amestrado falcão!...
Cristo! embalde morreste sobre um monte...
Teu sangue não lavou da minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do Universo...
Eu - pasto universal!...
Depois vi minha prole desgraçada,
Pelas garras d'Europa - arrebatada,
Amestrado falcão!...
Cristo! embalde morreste sobre um monte...
Teu sangue não lavou da minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos - alimária do Universo...
Eu - pasto universal!...
Hoje em meu sangue a América se nutre:
- Condor, que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão.
Ela juntou-se às mais... irmã traidora!
Qual de José os vis irmãos, outrora,
Venderam seu irmão!
Basta, Senhor! Do teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão para os crimes meus!
Há dois mil anos - eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!...
Fonte: "Os Escravos", Serafim José Alves, 1883.
Originalmente publicado em: "Os Escravos", Serafim José Alves, 1883.
Veja a biografia, lista de poemas e artigos sobre Castro Alves.
Role através dos astros e do espaço
Perdão para os crimes meus!
Há dois mil anos - eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!...
Fonte: "Os Escravos", Serafim José Alves, 1883.
Originalmente publicado em: "Os Escravos", Serafim José Alves, 1883.
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