Profissão de fé - Olavo Bilac

Olavo Bilac, poeta do parnasianismo brasileiro.

Poema de Olavo Bilac



Não quero o Zeus Capitolino
       Hercúleo e belo,
Talhar no mármore divino
       Com o camartelo.

Que outro - não eu! - a pedra corte
       Para, brutal,
Erguer de Atene o altivo porte
       Descomunal.

Mais que esse vulto extraordinário,
       Que assombra a vista,
Seduz-me um leve relicário
       De fino artista.

Invejo o ourives quando escrevo:
       Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
       Faz de uma flor.

Imito-o. E pois, nem de Carrara
       A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
       O ônix prefiro.

Por isso, corre, por servir-me,
       Sobre o papel
A pena, como em prata firme
       Corre o cinzel.

Corre; desenha, enfeita a imagem,
       A ideia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
       Azul-celeste.

Torce, aprimora, alteia, lima
       A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
       Como um rubi.

Quero que a estrofe cristalina,
       Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
       Sem um defeito:

E que o lavor do verso, acaso,
       Por tão sutil,
Possa o lavor lembrar de um vaso
       De Becerril.

E horas sem conto passo, mudo,
       O olhar atento,
A trabalhar, longe de tudo
       O pensamento.

Porque o escrever - tanta perícia,
       Tanta requer,
Que oficio tal... nem há notícia
       De outro qualquer.

Assim procedo. Minha pena
       Segue esta norma,
Por te servir, Deusa serena,
       Serena Forma!

Deusa! A onda vil, que se avoluma
       De um torvo mar,
Deixa-a crescer, e o lodo e a espuma
       Deixa-a rolar!

Blasfemo, em grita surda e horrendo
       Ímpeto, o bando
Venha dos Bárbaros crescendo,
       Vociferando...

Deixa-o: que venha e uivando passe
       - Bando feroz!
Não se te mude a cor da face
       E o tom da voz!

Olha-os somente, armada e pronta,
       Radiante e bela:
E, ao braço o escudo, a raiva afronta
       Dessa procela!

Este que à frente vem, e o todo
       Possui minaz
De um vândalo ou de um visigodo,
       Cruel e audaz;

Este, que, dentre os mais, o vulto
       Ferrenho alteia,
E, em jato, expele o amargo insulto
       Que te enlameia:

É em vão que as forças cansa, e à luta
       Se atira; é em vão
Que brande no ar a maça bruta
       À bruta mão.

Não morrerás, Deusa sublime!
       Do trono egrégio
Assistirás intacta ao crime
       Do sacrilégio.

E, se morreres por ventura,
       Possa eu morrer
Contigo, e a mesma noite escura
       Nos envolver!

Ah! ver por terra, profanada,
       A ara partida,
E a Arte imortal aos pés calcada,
       Prostituída!...

Ver derribar do eterno sólio
       O Belo, e o som
Ouvir da queda do Acropólio,
       Do Partenon!...

Sem sacerdote, a Crença morta
       Sentir, e o susto
Ver, e o extermínio, entrando a porta
       Do templo augusto!...

Ver esta língua, que cultivo,
       Sem ouropéis,
Mirrada ao hálito nocivo
       Dos infiéis!...

Não! Morra tudo o que me é caro,
       Fique eu sozinho!
Que não encontre um só amparo
       Em meu caminho!

Que a minha dor nem a um amigo
       Inspire dó...
Mas, ah! que eu fique só contigo,
       Contigo só!

Vive! que eu viverei, servindo
       Teu culto, e, obscuro,
Tuas custódias esculpindo
       No ouro mais puro.

Celebrarei o teu oficio
       No altar: porém,
Se inda é pequeno o sacrifício,
       Morra eu também!

Caia eu também, sem esperança,
       Porém tranquilo,
Inda, ao cair, vibrando a lança,
       Em prol do Estilo!




Fonte: "Poesias, edição definitiva", H. Garnier, 1902.
Originalmente publicado em: "Poesias", 1888.
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