Mario Quintana
Havia naquele tempo tanta coisa,
tanta coisa que subiria depois como um balão azul
quando eu precisasse de um pretexto urgente para não me matar...
Havia
a que passava cuidadosamente os meus poemas a ferro
(e nisso vejo agora a maior poesia deles..)
Havia a que sabia fingir que me escutava,
que parecia beber até, com seus grandes olhos,
os meus solilóquios
(eram tão chatos que só podiam ser solilóquios mesmo...)
e havia, entre todas,
a Eleita,
a que cortava as unhas da minha mão direita
(agora tenho de recorrer a profissionais.)
e havia, entre as demais,
a que ficou não sei onde esquecida...
Fonte: "Poesia Completa", Editora Nova Aguilar, 2006.
Originalmente publicado em: "Baú de espantos", Editora Globo, 1986.
