Ao meu coração - Adélia Fonseca

Adélia Fonseca, poeta da transição do Romantismo

Poema de Adélia Fonseca



Por que estás tão apressado,
Coração, a palpitar?
Queres, deixando meu peito,
Por esses ares voar?
Queres do meu pensamento
A carreira acompanhar?

Queres, mísero insensato,
Este desejo cumprir?
Intentas da fantasia
Os amplos voos seguir?
Buscas, vencendo a distância,
Tua saudade extinguir?…

Esta saudade tão funda,
Tão viva, tão pertinaz,
Que te faz tão desgraçado,
Que tão ditoso te faz?
Que tanto te amarga às vezes,
Que às vezes tanto te apraz?

Pretendes tu, pobre louco,
Tuas dores aumentar?
Desejas, ao lado d’Ele,
De martírios te fartar?
Queres, nos olhos que adoras,
Mais desenganos buscar?

Se ao excesso do tormento
Tivesses de sucumbir,
Quem tanto havia de amá-lo,
Deixando tu de existir?
Quem ousaria contigo
Em firmeza competir?

E ele, onde poderia
Tão soberano reinar?
Onde iria sua imagem
Obter tão devoto altar,
E tão desvelado culto,
Tão fervoroso, encontrar?

Deixa ir só meu pensamento,
De seus voos na amplidão;
Quem sabe se ao lado d’outra
O acharás, coração?
Morre embora de saudade;
Porém de ciúme… não!




Fonte: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
Originalmente publicado em: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
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