Alguém passou

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Poema de Guilherme de Almeida



Alguém passou. E a sua sombra,
como um manto que tomba
de um gesto lânguido, ficou no meu caminho.

Ora, o sol já se foi e a noite vem devarinho.
E no entanto
a sombra continua,
nítida e nua,
atirada na terra como um manto.

Faz frio.
Corre pelo meu corpo um áspero arrepio...
E um desejo me vem, tímido e louco,
de agasalhar-me um pouco
nesse manto de sombra morna...

                                       Mas alguém
volta na noite pálida:
volta para buscar sua sombra esquecida.

É dia. E, pela estrada melancólica e árida,
vai tremendo de frio a minha vida...




Fonte: "Toda a poesia", Livraria Martins, 1955.
Originalmente publicado em: "Acaso", Cia Editora Nacional, 1926.