Musa dos olhos verdes

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Poema de Machado de Assis



Musa dos olhos verdes, musa alada,
       Ó divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
       E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
       C’os fúlgidos cabelos;
Tu que transformas em dourados sonhos
       Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio às virgens;
       Tu que às mães carinhosas
Enches o brando, tépido regaço
       Com delicadas rosas;

Casta filha do céu, virgem formosa
       Do eterno devaneio,
Sê minha amante, os beijos meus recebe,
       Acolhe-me em teu seio!

Já cansada de encher lânguidas flores
       Com as lágrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
       Dourando as serranias.

Asas batendo à luz que as trevas rompe,
       Piam noturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
       Os seus silêncios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
       Melancólica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povoam;
       Musa, sê tu a aurora!



Fonte: "Poesias Completas", Livraria Garnier Irmãos, 1902.
Originalmente publicado em: "Falenas", Livraria Garnier Irmãos, 1870.

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