Do que gosto

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Poema de Adélia Fonseca



Eu gosto de ver o mar azulado
Douradas areias sereno banhar;
Eu gosto de vê-lo bramir iracundo
E sobre rochedos a fúria quebrar.

Eu gosto de ver um céu de safiras,
Um céu de Janeiro com almo luar;
Eu gosto de vê-lo bem negro e medonho,
Terrível mostrando querer desabar.


Eu gosto de ver o sol radiante
No roxo horizonte formoso assomando;
Eu gosto de vê-lo, da tarde no termo,
A fronte abrasada no mar mergulhando.

Eu gosto de ver a triste rolinha
Carpir do consorte saudades na ausência;
Eu gosto de vê-la amante, extremosa,
Manter dos filhinhos a tênue existência

Eu gosto de ver a rosa entre-aberta,
E mais - rociada das gotas do orvalho;
Eu gosto de vê-la, nos dias d'inverno,
Em triste desmaio pendente do galho.

Eu gosto de ver o níveo cordeiro
Na relva viçosa mansinho dormindo;
Eu gosto de ver o tigre indomável
No centro das matas sanhudo rugindo.

Eu gosto de ver um campo esmaltado
De belas florinhas que espalhem odor;
Eu gosto de vê-lo bem árido, inculto,
Sem flor, sem perfumes, que inspirem amor.

E mais que do sol, do céu, do cordeiro,
Do campo, da rosa, da rola e do mar,
Eu gosto de ver da linda Sofia
Um riso nos lábios, divino, pousar.



Fonte: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.
Originalmente publicado em: "Ecos da Minh'alma", Tipografia Camillo de Lellis Masson, 1866.

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