Este relógio

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Poema de Cora Coralina



I

Relógio novo, vertical
na parede.
Entrou à casa nova
pela porta amável dos presentes
em dia de casamento.

II

Relógio novo, casa nova.
Hora de sono, de acordar.
É o carrilhão dos beijos
de gente moça que juntou
as mãos um dia,
que ligou os destinos
ante um altar
para a travessia da vida.

III

Relógio novo,
discreto, silencioso.
Utilidade silenciosa
na agitação ruidosa
da vida.
Marca só, não bate
as horas felizes
que em ronda
vão chegando,
vão passando,
sempre renovadas.

IV

Relógio novo, logo mais
você marcará também,
a chegada de alguém
que se espera
com o enlevo dos pais
e ternura da avó.

V

O dedinho da criança
um dia (estará você mais velho)
apontará o mostrador
sorrindo.
Decifrará os números,
aprenderá consigo
a leitura das horas:
Horas do batizado,
dos primeiros passos.
Horas da escola - 
ida e volta.

VI

Meninos virão
e indagarão de você
o tempo que passa:
Breve, alegre para uns,
longo, inexpressivo para outros.
O menino, o homem.
O ritmo da vida
que os ponteiros vão marcando.

VII

Relógio novo, vertical
na parede.
Relógio amigo
vai marcando horas...
Marca sempre
horas felizes
neste lar.
Marca sempre
para minha filha
as horas boas
que não marcou
para mim...



Fonte: "Meu livro de cordel", Global Editora, 2012.
Originalmente publicado em: "Meu livro de cordel", Editora Cultura Goiana, 1976.


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