O galo e o dia - Cacaso

Cacaso (Antônio Carlos de Brito)



Na manhã da Sta. Marina
não é o galo que canta:
Acorda o dia tão cedo,
com tanta flor na garganta,

que ele dia se incumbe
daquilo que o galo esquece:
O dia canta no terreiro
enquanto o galo amanhece.

Na Sta. Marina o dia
também cisca seu sustento:
Agora o sol nasce no galo
de fora, nunca por dentro.

Nasce o sol bem desenhado
onde se havia por crista.
O dia capaz de esporas,
aurora que não se arrisca.

Na Sta. Marina é dia
quando o dia ainda cisca
ou quando a crista do galo
passa o mundo em revista.




Fonte: "Poesia completa", editora Companhia das Letras, 2020.
Originalmente publicado em: "A palavra cerzida", José Álvaro Editor, 1967.