Noturno maduro - Cacaso

Cacaso (Antônio Carlos de Brito)



Nesta hora os deuses pensam.
O tempo se desenvolve
a partir da integração.
O mundo aguarda: Que será?

Vêm os planos, a aspiração,
e a descoberta tristíssima
do nada. No sangue
a noite tornou-se um vício.

Este mergulho na treva
ainda é meu consolo.
Vida, que sei de ti?
Talvez nada, talvez nem isso...

Janelas espiam seios
e Raquel ainda é virgem.
Na elaboração do eterno
nem a morte se atreve.

Num quarto longe do mundo
sou um homem,

dolorosamente.




Fonte: "Poesia completa", editora Companhia das Letras, 2020.
Originalmente publicado em: "A palavra cerzida", José Álvaro Editor, 1967.