Não me pertenço - Emílio Moura

Emílio Moura - poeta da segunda geração do modernismo brasileiro
Emílio Moura



Agora que estou diante de ti, já não me pertenço.
Nem pergunto quem és, porque já te esperava.
Vens do fundo dos tempos como uma aparição mítica.
Tudo o que vejo em ti é um misto de graça e de fascinação terrível.

Por que trazes em ti, na tua palavra e no teu silêncio,
esse poder de destruir e o de me elevar tão alto?

Se aponto para a minha sombra, é a tua sombra que vejo;
se me debruço sobre o meu destino, é o teu destino que toco.

Não me pertenço.
O próprio mundo desaparece.
Só tu sobrevives, frágil e eterna, diante de meus olhos.




Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Cancioneiro", Edições do Trevo, 1945.