Emílio Moura
Sentir o que resta
desta última tarde,
tão sem horizonte,
sem nenhum mistério,
vibração nenhuma.
Sentir o que resta
de tudo. Tão pouco.
A estrela perdida,
já perdido o dia,
tão muda a palavra
que, real ou mágica,
talvez te salvasse.
Não, não salvaria.
Sentir o que fica,
entre dois silêncios,
preso por um fio
súbito vibrando
entre a noite e o enigma.
Sentir o que nunca
poderá ser dito,
pensado, vivido,
e ficar à espera,
ficar entre nadas,
enigmas, nuvens,
náufrago boiando,
sem onde nem quando.
Sentir que esta noite
se fecha. Fechou-se.
Não sentir mais nada.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.
