Emílio Moura
Baixa a tarde. Repara!
Em nós, dentro de nós,
há mais mortos que vivos.
Nosso dia, que dia!
já não é esse, é outro
que apenas relembramos
onde, quando, por quê?
E olhamos para tudo sem que ao menos, de leve,
algo diga: presente!
Ah, fervor de voltar quando o regresso é tudo.
A tarde ressuscita ignotos mitos da infância
e há o velho diálogo
de sombra a sombra.
Sombra! Ávida chega
e engole a última réstia que brincava
nesta curva. "Sou eu", grito, de súbito.
Mas, que eu, agora, que eu ressucitado
se organiza a este apelo ou volta em eco?
Gritem todas as cores e que todas as formas se reabilitem.
Que o ritmo se reintegre em sua condição de ritmo.
Ó eu de antes do dilúvio:
quebrai este silêncio.
Quero ouvir os meus passos e o eco de meus passos.
Que haja agora a poesia.
Pura,
pura,
a revelação da poesia.
Tudo aspira a ser voz, há um canto unânime
em perspectiva:
o último canto.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.
