A tarde vai-se - Emílio Moura

Emílio Moura - poeta da segunda geração do modernismo brasileiro
Emílio Moura



Que dizer desta tarde, se é tão tarde?
Dizer à última sombra que ela é sombra
de outras sombras? Que tudo já se apaga
e, calado, não lembra o que, lembrado,
torna perto o distante e vivo, o morto?
Dizer que a própria tarde,
pobre de luz, despede-se de tudo,
para arder em silêncio e até mesmo em remorso?
Dizer: missão cumprida
e achar que a alma se salva na lembrança
de algo pleno e se acalma?
Ou melhor é calar, ouvir apenas
o segredo das coisas, que é segredo
privativo das coisas? Esse espanto,
súbito espanto às vezes percebido
pelos olhos que os olham, de que nasce?
A tarde que o ignore
e cale. Antes deixar
o perdido, perdido, e o mudo ainda mais mudo.
Mas a tarde, no entanto,
freme, agita-se, ou grita o seu último apelo
a tudo. A tarde vai-se e nos arrasta
com seu grito de adeus às formas, ah, tão belas
que, serenas, mergulham
numa sombra que cresce e, fria, nos engole,
e é tudo.




Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.