A tarde - Emílio Moura

Emílio Moura - poeta da segunda geração do modernismo brasileiro
Emílio Moura



Que a noite não me encontre
cego a esta tarde, ou preso a filamentos
que se perdem no tempo.
Nem que o búzio da infância - ah, vozes milenárias
indo e vindo na tarde,
junte-se agora ao que erra pela altura
e baixa sobre mim que me procuro
em tudo e não me encontro.
Que a tarde não me veja
de olhos vazios, mãos vazias, de alma
vazia; que ela exista
apenas porque é próprio de uma tarde
ser tarde, sem buscar nunca dos nuncas
a razão de ter vindo a ser a tarde,
a tarde e nada mais.
Que a noite não me encontre
sem que eu me veja e sinta no que penso
e sou; que ela me fale,
não do que dorme, rútilo, em seu seio,
e é lembrança do dia que se finda.
Que ela me fale apenas da doçura
desta luz que vem do alto, do horizonte
que adormece, ou das formas que se aquietam,
no espaço,
para um sono sem sonhos,

que esta tarde parece a última tarde.




Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.