À luz da tarde - Emílio Moura

Emílio Moura - poeta da segunda geração do modernismo brasileiro
Emílio Moura



E, agora, à luz da tarde, o repentino
frio medo de amar. Fundem-se os tempos;
calam-se as vozes; o que foi vivido
chama e gelo se faz, êxtase e pânico.

Faz frio. Em nós, apenas? No ar? Nos astros?
No que vive de nós fora de nós?
Ou esse frio é o frio que há nas sombras
em que o olhar se debruça e não vê nada?
Em vão pego de tudo o que não tenho,
do que sou, por não ser, fruto de ausências,
e armo-te no ar a imagem fugitiva.

Em vão. Surges e, pálida, te esfumas.
Quem és tu que te esvais, trêmula, trêmula,
diante do amor que neste amor te inventa?




Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Itinerário poético", 1969.