Sesta - Astrid Cabral

Astrid Cabral - poeta contemporânea do final do século XX
Astrid Cabral



Mudas as louças do almoço
recolhem-se ao ventre
de sombrios armários
enquanto a paz se coalha
na vasilha das ruas nuas.
Os raros bondes carregam
a paisagem cantando na
pauta de trilhos em brasa.
Sem bafo de brisa as folhas
recortam-se em cartolina.
Cerram-se sonolentas janelas
no lasso mormaço da tarde.
Longas sestas de sonos sem
sons de sapos e serenatas
só os esses das redes sus-
surrando surdos rangidos.
(Que o tempo não escorre
de ausentes vagos relógios!)
Apenas o rio, eternamen-
te serpente revolvendo
areias de inércia e ócio.




Fonte: "Visgo da terra", Editora Valer, 2005.
Originalmente publicado em: "Visgo da terra", Editora Valer, 2005.