Emílio Moura
A tarde é ruído nas avenidas,
a tarde é calma nos arrabaldes.
No céu de bronze as aves pairam.
Depois, rápidas, num risco reto, elas descem como aviões de brinquedo
equilibram-se trêmulas, trêmulas,
e de novo pairam no céu de bronze.
Infinita, a cidade vive.
Há luzes florindo, correndo nas ruas,
há luzes paradas.
A noite é calma nos arrabaldes...
O silêncio sobe da terra magoada,
o silêncio desce do céu luminoso,
tão luminoso e tão alto que ninguém pensa nele.
Pelos jardins de trepadeiras muito calmas,
de heras e rosas,
uma inútil melancolia
planta um refúgio desconsolado.
Infinita, vaga serenidade.
Fonte: "Itinerário poético", Editora UFMG, 2002.
Originalmente publicado em: "Ingenuidade", Editora Os Amigos do Livro, 1931.
